29/11/2018 às 13h47min - Atualizada em 29/11/2018 às 13h47min

Cientista chinês que editou genes em embriões é criticado em congresso

He Jiankui, que afirmou ter criado as primeiras bebês humanas geneticamente modificadas, suspendeu os testes, mas também disse que outra voluntária do experimento está grávida.

Fonte G1

Cientista chinês He Jiankui na II Cúpula Internacional sobre a Edição do Genoma Humano, em Hong Kong — Foto: Anthony Wallace / AFP Photo

Os organizadores do Congresso Internacional de Edição de Genomas Humanos (‪Gene Edit Summit‪) condenaram nesta quinta-feira (29) a pesquisa do geneticista chinês He Jiankui, que anunciou durante o evento ter modificado os genes dos embriões de gêmeas para torná-las resistentes ao HIV, o vírus da AIDS.

O professor da Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da China, em Shenzhen, cidade que faz fronteira com Hong Kong, alega ter eliminado um gene chamado CCR5 que impediria as meninas gêmeas de serem contaminadas pelo HIV em caso de contato com o vírus. A modificação foi feita antes dos embriões serem implantados no útero da mãe.

De acordo com os organizadores do congresso, a pesquisa é “irresponsável e preocupante”. Ainda segundo o texto do comunicado, mesmo se as modificações genéticas forem confirmadas, o procedimento desrespeita as regras internacionais.

Os organizadores pedem uma avaliação independente da pesquisa realizada por Jiankui, que afirmou na quarta-feira (27) ter usado a tecnologia Crisp-Cas9 para modificar os embriões. A técnica, que permite “editar” a sequência do DNA e abre caminho para a cura de doenças pela terapia gênica, suscita interrogações sobre a ética e a segurança envolvidas.

A comunidade científica chinesa também condenou a pesquisa. A Universidade de Ciência e Tecnologia do sul da China, onde He Jiankui é professor, também anunciou a abertura de uma investigação. Atualmente, Jiankui está de licença. A comissão sanitária da província de Guangdong, onde fica a universidade, também informou a abertura de uma investigação nas instalações da universidade.

As revelações do jovem geneticista chinês He Jiankui na véspera da abertura do Congresso Internacional de Edição de Genomas Humanos (‪Gene Edit Summit‪), em Hong Kong, transformaram o evento acadêmico em uma grande coletiva de imprensa sobre o caso.

As declarações pegaram a comunidade acadêmica de surpresa, já que os resultados da pesquisa ainda não foram publicados. O que seria o roteiro tradicional para tornar público grandes desenvolvimentos científicos. Por enquanto, os dados não foram verificados de forma independente. Mesmo assim, ninguém parece duvidar que o experimento seja tecnicamente viável. Faltava apenas romper barreiras morais.

Nem os organizadores do congresso sabiam dessa pesquisa com embriões humanos. O professor deveria apresentar outro trabalho no evento, mas diante da reação internacional teve que dar explicações sobre o estudo feito praticamente em segredo.

Para muitos cientistas, He Jiankui foi longe demais. A alteração genética em laboratório de embriões humanos saudáveis, que depois foram implantados no útero de uma paciente, gerou uma onda de condenações e abriu o debate sobre a ética e a legalidade desse procedimento. A tecnologia Crispr permite que cientistas modifiquem o DNA de um organismo, "recortando e colando” partes do material genético em pontos específicos do genoma. Experimentos já vinham sendo feitos com animais, como ratos e macacos.

Técnica ainda gera questionamentos éticos

A possibilidade de edição genética é uma esperança para impedir doenças, mas é motivo de grande apreensão e incerteza sobre limites e consequências. Há muitas perguntas sem respostas. Os riscos são difíceis de prever. O DNA alterado pode provocar outras modificações no próprio organismo ou no de seus descendentes.

Essa semana, o congresso da Universidade de Hong Kong foi invadido por dezenas de jornalistas. He não respondeu as perguntas da mídia, mas foi sabatinado por seus colegas.

Os questionamentos foram muitos. O cientista foi criticado pela falta de transparência do projeto que começou há três anos e chamado de irresponsável. Alguns acusaram a falta de autorregulação da comunidade científica de ter criado o ambiente para que isso acontecesse. Outros acreditam que o mundo está pronto para o uso clínico responsável da técnica.

A China foi apontada como o terreno fértil para experimentos desse tipo, graças ao grande volume de investimento em pesquisa científica, ao capital humano disponível - profissionais com alta formação – somados a uma regulação opaca e a inexistência de lobby religioso, que em outros países condena qualquer pesquisa com embriões.

Robin-Lovell-Badge, geneticista do Francis Crick Institute, disse aos jornalistas presentes que não há nada que sugira que o colega chinês não fez o que diz, mas que He falhou em não tomar todas as precauções e se assegurar que o procedimento era legal. "Ele não considerou a abordagem mais consciente e cuidadosa”, acrescentou

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