20/11/2018 às 09h30min - Atualizada em 20/11/2018 às 09h30min

Até 50% das crianças brasileiras sofrem de anemia por falta de ferro

Apesar de recomendação do Ministério da Saúde, a maioria dos pais não faz suplementação alimentar com sulfato ferroso

Fonte Gazeta Online

Criança segurando bebê no colo - Foto: Shutterstock

A filha da paulistana Aynara Rodrigues ainda não completara 1 ano quando um susto seguiu-se ao outro: levada ao hospital para tratar de uma febre que não passava, Sophia foi diagnosticada com anemia.

A mãe ficou sem entender. Animada e rechonchuda, a menina nunca torcera o nariz para a comida, desde que começara a consumir alimentos adicionais ao leite materno. Por isso, a hipótese da anemia nunca passara pela cabeça de Aynara.

"A pediatra me perguntou se ela tomava sulfato ferroso complementar à alimentação. Eu disse: 'Não. Deveria?'".

A surpresa de Aynara é comum. No Brasil, estima-se que entre 20% e 50% das crianças com até 5 anos sofram de anemia por deficiência de ferro. A prevalência tem variações regionais.

"De maneira geral, a anemia infantil é um problema de saúde pública subestimado em todo o país", diz a professora Célia Campanaro, do Departamento de Hematologia e Hemoterapia da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP).

Uma das maneiras de prevenir a doença é oferecer sais de ferro para suplementar a dieta. O Ministério da Saúde recomenda a medida para toda criança entre seis meses e 2 anos de idade.

Um novo estudo, realizado por uma equipe da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sinaliza, no entanto, que poucas famílias seguem o conselho. Ou o seguem mal.

Somente 5,6% das crianças de até 2 anos fazem essa suplementação, uma parcela muito abaixo da meta perseguida pelo ministério - de que pelo menos 50% delas consumam sais de ferro preventivamente. Isso, segundo os pesquisadores, apesar das iniciativas do governo para facilitar o acesso ao medicamento.

EFEITOS SUBESTIMADOS

A equipe da professora Tatiane Dal Pizzol chegou a essa conclusão depois de avaliar dados sobre 7,5 mil crianças de até 12 anos em todo o país. As informações constavam na Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos (PNAUM).

Segundo o levantamento, que se baseou em entrevistas domiciliares com os responsáveis pelas crianças, somente 1,8% do grupo tinha consumido sais de ferro nos 15 dias anteriores ao inquérito. A frequência da utilização cresce conforme cai a idade das crianças, mas é baixa em todas as faixas etárias. No grupo com menos de 1 ano, aquele em que a utilização é mais frequente, os sais de ferro são usados por 8,5% das crianças.

"Nós já esperávamos que a utilização de sais de ferro estivesse aquém do necessário, mas ficamos surpresos com os resultados", diz Tatiana.

A questão preocupa porque os efeitos da anemia no desenvolvimento cognitivo são sérios e ainda subestimados. O ferro é essencial para a formação das hemácias, as células sanguíneas responsáveis pelo transporte de oxigênio.

O mineral também participa da formação de massa óssea e muscular, e sua demanda aumenta durante a infância e a adolescência, períodos de crescimento acelerado. A ausência de ferro pode provocar alterações comportamentais, irritabilidade e prejudicar o sono da criança. No longo prazo, causa impactos no desempenho escolar e na capacidade de aprender.

Para combater a anemia, o governo brasileiro adota, desde 2004, uma política de fortificação com ferro das farinhas de trigo e milho produzidas no país. E, em 2005, criou o programa Nacional de Suplementação de Ferro

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