07/08/2020 às 11h36min - Atualizada em 07/08/2020 às 11h36min

Usado para detectar a Covid-19, oxímetro é alvo de discriminação racial

Aparelho médico que contabiliza oxigenação no sangue pode apresentar falhas de até 8% quando utilizado em negros, latinos e indígenas

Fonte Olhar Digital
A tecnologia tem sido essencial para o constante desenvolvimento científico no combate contra a Covid-19. É engraçado pensar que um aparelho pequeno e discreto como o oxímetro — aquele dispositivo utilizado nos dedos dos pacientes em triagens hospitalares — consegue detectar a porcentagem de oxigenação no sangue por meio de luzes infravermelhas. O problema é saber que o aparato médico apresenta falhas graves em indivíduos que não são brancos, colocando milhões de vidas em risco.

O oxímetro pode ser encontrado na internet por cerca de R$ 100. Por meio de luzes vermelhas e infravermelhas, ele faz a leitura de hemoglobinas no sangue, mede a quantidade de luz transmitida por meio dos capilares do paciente e detecta a quantidade de oxigênio presente nas correntes sanguíneas.

O aparelho inclusive tem sido recomendado por membros de saúde, já que a baixa saturação de oxigênio é um dos diversos sintomas da Covid-19. Os dados da OMS apontam que:

Pessoas saudáveis que vivem ao nível do mar possuem porcentagem de oxigênio no sangue entre 95% e 100%

Indivíduos com condições leves de saúde (como gripes ou resfriados) podem apresentar porcentagens entre 95% e 100%

Leituras abaixo de 90% são consideradas casos de emergência clínica


Dispositivo médico tem sido utilizado em hospitais da cidades de São Paulo para detectar possíveis casos de Covid-19. Foto: Quinn Dombrowski/Flickr

Resultados diferem entre raças


O grande problema é que assim como em casos de reconhecimento facial, a tecnologia tem favorecido apenas a população branca. Como o dispositivo utiliza sensores de luz sobre a pele, é imaginável que resultados entre negros e brancos possam apresentar diferença.

Buscando averiguar o caso, um grupo de cientistas americanos de um laboratório na Universidade da Califórnia (UCSF) realizou diversas pesquisas, que foram publicadas em 2007.

Ao analisar 1.067 dados oriundos dos testes, a equipe descobriu um padrão bem claro de falhas: os aparelhos superestimavam a porcentagem de oxigênio no sangue de negros, latinos e indígenas. Em alguns casos, a margem de erro chegava a 8%, enquadrando pessoas enfermas como saudáveis.

A causa tem raíz histórica. As tecnologias de ponta geralmente foram criadas e utilizadas com bases em padrões de pessoas brancas. O grupo de pesquisa da UCSF concluiu que há uma grande probabilidade dos oxímetros terem sidos calibrados tendo as peles claras como referência.


Negros, indígenas e latinos podem ser diagnosticados erroneamente por "falhas de leituras" dos oxímetros. Foto: Rawpixel

Falha segue sem solução


Diversas atualizações das pesquisas foram publicadas pela UCSF. Ruha Benjamin, socióloga especializada em ciência e tecnologia, também foi uma das pessoas que reivindicou medidas corretivas em prol da população negra.

Contudo, parece existir uma certa negligência por parte do setor de saúde, já que nenhuma ação foi tomada ao longo desses anos. As informações e pesquisas que evidenciam a discriminação do oxímetro também são escassas.

O descaso — que por si só já é considerado gravíssimo — se torna ainda mais preocupante após uma análise da CNN (com base nos boletins epidemioógicos do Ministério da Saúde) apontar que os negros estão morrendo 40% mais que os brancos no Brasil por conta da pandemia.

Os engenheiros do MIT sugerem adicionar LEDs ajustáveis aos oxímetros, permitindo aos dispositivos a definição de padrões individualizados para cada usuário. Deste modo, a precisão e a segurança equitativa poderia ser garantida. Além disso, a criação de bancos de dados capazes de reunir informações de pessoas de raças diferentes, pode permitir que algoritmos mais plurais sejam encontrados.

É necessário, especialmente com a chegada da Covid-19, que haja um cuidado homogêneo para com os cidadãos. A tecnologia deve ser aliada da ciência, atuando de maneira precisa e efetiva no auxílio aos quase 19 milhões de infectados pelo coronavírus no mundo.

Via: Boston Review
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