22/07/2020 às 10h37min - Atualizada em 22/07/2020 às 10h37min

Criança autista descobre amor por garis e supera medo de interagir com adultos; 'Ganhou uniforme e recolhe lixo da rua toda', diz mãe

Eduardo Souza Sena, Dudu, mora em Governador Valadares (MG) e é apaixonado pelo trabalho dos garis desde os dois anos. Neste mês, ele ganhou boné, luvas e uniforme e realizou o sonho de subir no caminhão com os amigos.

Fonte G1
Dudu fica uniformizado à espera do caminhão de lixo — Foto: Diana Alves/arquivo pessoal

O caminhão de lixo passa três vezes na semana e Eduardo Souza Sena, o Dudu, já fica na porta de casa esperando sempre disposto a ajudar. O menino, de 5 anos, diagnosticado com autismo, descobriu o amor pelos garis aos dois anos quando observava o caminhão passar pela varanda de casa, em Governador Valadares (MG). No início, ele tinha dificuldades para interagir com adultos, mas a amizade com os garis o ajudou a superar limites.

“Ele tinha muito medo e toda vez que via a gente, se escondia. Mas sempre fazíamos brincadeiras e chamávamos por ele ao passar de frente a casa. Hoje, quando aparecemos com o caminhão na rua, Dudu já está na porta nos esperando. Ele gosta de pegar a sacola que aguenta e joga no caminhão”, conta o gari Robert Pereira da Silva.

“Dudu era muito retraído com qualquer adulto e se escondia sempre que chegava alguém perto dele. Depois dessa amizade, criou uma confiança nos adultos, eu fico feliz porque ele não interagia com ninguém”, comemora a mãe Diana Alves de Souza.

No início desse mês, Robert e um outro colega resolveram presentar o garoto com um uniforme, um par de luvas e um boné. Agora, a diversão nos dias de coleta começa cedo com a caracterização que faz Dudu se sentir um gari de verdade.

“O caminhão passa por volta de meio-dia e ele acorda 6h, veste a roupinha e já fica preparado. Antes, ele recolhia só o lixo daqui de casa, mas depois desse presente quer juntar o lixo da rua toda, se sente o próprio gari”, diz a mãe.

E não é só o Dudu que fica ansioso, Robert e os cinco colegas compartilham do mesmo sentimento. Eles contam as horas para passar pela Rua M, no Bairro Fraternidade. A coleta lá é feita nas terças, quintas e aos sábados.

“Nós também ficamos na expectativa, doidos para passar na rua e brincar com o Dudu. Eu amo o meu trabalho e é muito gratificante ver uma criança que gosta tanto de ver a gente trabalhando e nos admira”.


Dudu aprendeu a confiar nos adultos por causa da amizade com os garis — Foto: Daiana Alves/ Arquivo pessoal

Depois que ganhou o par de luvas, o menino realizou o sonho de subir no caminhão junto com os amigos garis.

“Eu pedi e os meninos deixaram, ele ficou feliz demais. Uma vez, consegui colocá-lo na cabine do caminhão, mas ele saiu super triste porque o sonho dele era andar atrás com os garis”, relembra a mãe.

Amor pelos garis


Dudu ganhou um caminhão de presente do pai quando tinha dois anos — Foto: Diana Alves/ Arquivo pessoal

Os pais perceberam o amor do menino quando ele ainda tinha dois anos e gostava de observar o caminhão de lixo passando na rua pela varanda de casa.

“Vi que ele gostava muito, ficava feliz e fazia a maior festa quando o caminhão passava. Quando estava com três anos, meu marido deu de presente um caminhão parecido com o de lixo. Ele ficou feliz demais quando viu que era um caminhão e dormia abraçado com esse brinquedo”.

O amor de Dudu pelos garis só cresce ao longo dos anos e apesar da pouca idade, a mãe tem certeza que o filho vai seguir essa profissão quando crescer.

“Se continuar com esse amor, Dudu vai ser gari. Ele tem dificuldade na fala, mas toda vez que pergunto o que ele vai ser, sempre responde: ixo, ixo. Em casa, ele se diverte vendo vídeos na internet que mostram garis trabalhando”.


Menino realizou o sonho de subir no caminhão de lixo com os amigos garis — Foto: Diana Alves/ Arquivo pessoal

A mãe relata que ao compartilhar um vídeo de Dudu com o uniforme de gari nas redes sociais foi questionada porque não incentivava o filho a ser médico, advogado ou cientista.

“Se ele quiser ser gari, vai ter o meu apoio, é uma profissão muito honrada e muitas vezes discriminada. Eu respondi para a pessoa que fez esse comentário que é na inocência das crianças que a gente tem esperança no futuro”.

Esse amor que Dudu alimenta é o mesmo que o gari Robert Pereira da Silva, de 26 anos, sente desde a adolescência. Há três anos, ele largou o serviço de servente de pedreiro para realizar o sonho de ser gari.

“Sempre tive vontade de trabalhar como gari e falava isso com meus pais. Sou apaixonado pela profissão e não consigo me imaginar fazendo outra coisa”
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