14/08/2019 às 10h36min - Atualizada em 14/08/2019 às 10h36min

Portuguesa chega aos 99 anos sem divisão, endividada e com centenário em risco

Clube não consegue chegar à Série D, vê as dívidas superarem o patrimônio e tem o Canindé ameaçado por um novo leilão; torcida resiste para não perder o estádio

Fonte Globo Esporte

Artur Cabreira Gomes, torcedor da Portuguesa — Foto: Cristiano Fukuyama

Artur costuma acordar cedo, muitas vezes antes de o sol nascer. Entre um gole e outro de café, checa as centenas de mensagens que recebeu no celular. A maior parte é de amigos de arquibancada e tem a ver com o time do coração dele.

O primeiro “bom dia” vem do rádio, que de uns anos para cá não traz mais notícias do clube que Artur ama. Ele nem procura no jornal ou na televisão, porque sabe que não encontrará. Talvez por isso tenha tanta referência em casa.

No quarto, na sala, na cozinha e até na varanda do apartamento há tudo quanto é acessório da equipe. Chaveiro, caneca, copo, prato, carrinho de coleção, etc. Mas, ainda assim, não é ali na Vila Albertina que Artur se sente em casa.

Ele pega o carro e não vai muito longe, nem sai da Zona Norte de São Paulo. O refúgio preferido de Artur fica na região do Pari. Mais precisamente, no estádio do Canindé. Sim, ele é torcedor fervoroso da Portuguesa.

Artur Cabreira Gomes tem 63 anos e nem sabe precisar quando passou a ser lusitano. Quem vê hoje, imagina que já nasceu cantando o hino do clube. O pai era português, a mulher também e os filhos, óbvio, são torcedores da Lusa.

Só que, entre tantas idas ao Canindé na semana, poucas são para ver jogos. Afinal, nos oito meses deste ano, o estádio passou quatro sem receber partidas.

As principais companhias de Artur são latas de tinta, rolos e pincéis. Artur criou e lidera o grupo SOS Canindé, formado por torcedores que tiram dinheiro do próprio bolso para reformar o estádio. Mesmo porque as últimas diretorias apenas deixaram as velhas arquibancadas se deteriorarem.

– Compramos 92 latas de tinta e pintamos tudo. Limpamos e pintamos o fosso. Trocamos 31 lâmpadas dos refletores. Fomos para as cabines de imprensa, pintamos tudo e trocamos todos os vidros. Agora, estamos mexendo na pior situação: a marquise do estádio. Não tem um tostão da diretoria – afirmou Artur.

Torcedores da Portuguesa bancam pintura do Canindé — Foto: Cristiano Fukuyama

Torcedores da Portuguesa bancam pintura do Canindé — Foto: Cristiano Fukuyama

O grupo percebeu que, perdendo o Canindé, a Portuguesa acaba. E esse risco não está tão distante. O estádio já foi a dois leilões por dívidas e só não acabou arrematado porque metade dele está em um terreno de concessão da prefeitura.

A torcida já entrou com dois pedidos de tombamento do Canindé como patrimônio histórico e aguarda resposta. O objetivo é evitar que um terceiro leilão aconteça e que algum investidor consiga um acordo para arrematar.

Enquanto isso, o estádio vai sendo usado mais para aluguel para eventos, como shows, baladas e até cultos evangélicos, do que para jogos. Neste ano, muitas partidas foram transferidas para o estádio municipal de Osasco.

A Portuguesa completa 99 anos nesta quarta-feira com risco de perder o estádio, com dívidas que ultrapassam o valor de todo o patrimônio e sem vaga em nenhuma divisão nacional. Um drama que parece não ter fim.

Canindé recebe nova pintura — Foto: Cristiano Fukuyama

Canindé recebe nova pintura — Foto: Cristiano Fukuyama

Artur se acostumou a ver a Lusa disputando clássicos, incomodando gigantes, lutando por títulos e sempre na elite do Campeonato Brasileiro. Hoje, vê o clube na segunda divisão estadual e disputando a Copa Paulista.

– Um horror. Para quem viu todos esses jogadores, como Leivinha, Ivair, Cabinho, Enéas, Basílio, Dicá, Zenon, Rodrigo Fabri, Zé Roberto, sempre disputando final. Hoje, eu mesmo não consigo gravar um time da Portuguesa. Nos últimos três anos, foram mais de cem jogadores. Tudo sem planejamento – contou Artur.

A Copa Paulista é um torneio regional que dá ao campeão, e somente ao campeão, uma vaga na Copa do Brasil ou na Série D do Campeonato Brasileiro. A Lusa está na primeira fase, mas fora do grupo que avança para a segunda.

Ou seja, o Canindé vai ficando cada dia mais bonito por esse processo de revitalização, mas cada vez menos recebe a torcida. O estádio tem sido o ponto de resistência, já que o restante do clube está praticamente evaporando.

Torcedor da Portuguesa no Canindé — Foto: Luiz Nascimento

Torcedor da Portuguesa no Canindé — Foto: Luiz Nascimento

As alamedas em que Artur caminhava, as piscinas em que Artur levava os filhos, o campo de areia em que Artur batia bola na juventude, tudo isso foi aterrado para criar espaços para aluguel para eventos.

As decisões foram tomadas pela atual gestão, do presidente Alexandre Barros. O mandatário alega que as estruturas estavam condenadas, que a diretoria tem essa prerrogativa e que esses eventos trazem receita ao clube em crise.

– Uma atitude, no mínimo, absurda. Não tenho dúvidas de que o nosso parque aquático estava com a estrutura condenada. Agora, essa decisão não poderia ser ditatorial. No mínimo, um laudo condenando a instalação, junto com um projeto. Teria que ser discutido, apresentado, mostrado para o Conselho. Tudo foi muito mal explicado, não dá para compreender – disse Antônio Ribeiro.

Ele foi o último presidente do Conselho Deliberativo. Antônio renunciou ao cargo em abril de 2018, sob o risco de ter as contas pessoais bloqueadas por dívidas da Lusa. O mesmo aconteceu no COF, o Conselho de Orientação e Fiscalização.

Desde abril de 2018, a Portuguesa não tem eleições para as mesas do Conselho e do COF. O que significa que a diretoria não tem a quem consultar para decisões como essas e que não há quem fiscalize as contas do clube.

Antes de sair, Antônio Ribeiro comandou uma auditoria interna que conseguiu levantar as dívidas do clube com precisão até 2016. A constatação foi de que os débitos chegavam a R$ 354 milhões, mais do que vale o patrimônio.

– A Portuguesa deve mais do que vale o patrimônio. A dívida aumenta, a cada dia, uma enormidade. O surreal é que os maiores credores são conselheiros ou ex-conselheiros. Tem dívida que era de R$ 17 mil reais e que hoje já está em milhões. Transparência? Essa palavra não existe na Portuguesa – explicou Antônio Ribeiro.

A cada dia se torna mais clara a importância do trabalho de torcedores como Artur. Se a Portuguesa ainda não fechou as portas, em meio até a penhoras de troféus, é por ter uma casa e uma torcida que resiste em todos os momentos.

Se lusitanos como Artur se surpreendem com a queda vertiginosa da Lusa, que desde 2013 despencou da elite do Campeonato Brasileiro até não ter divisão nacional a disputar, imagina craques que construíram a história do clube.

Um dos grandes ídolos de Artur é o goleador Ivair, que foi o principal craque da Portuguesa nos anos 1960. Não a toa, Ivair recebeu do próprio “Rei” Pelé o apelido de “Príncipe do Futebol”, que carrega até hoje.

– É muito triste você ter uma história dentro de um clube e não ver nada de bom acontecendo. A cada ano que passa, vejo o time da Portuguesa com mais problemas. Você vai ver jogos e se entristece depois que sai do estádio. E não vê uma reação, como todo mundo fala, uma luz no fim do túnel – desabafou o ídolo.

Ivair é um dos maiores ídolos da história da Portuguesa — Foto: Cristiano Fukuyama

Ivair é um dos maiores ídolos da história da Portuguesa — Foto: Cristiano Fukuyama

Ivair ainda acompanha a Lusa, indo ao estádio, procurando resultados e conversando com torcedores diariamente. Mas confessa que, desde 2013, já não encontra mais a mesma empolgação. A esperança vai sendo abalada.

Naquele ano, a Portuguesa estava na elite do Campeonato Brasileiro e foi rebaixada para a Série B por ter escalado irregularmente o meia Héverton. O STJD tirou do clube quatro pontos, que custaram a permanência na Série A.

Na ocasião, até o Ministério Público abriu uma investigação. A promotoria queria saber se houve corrupção na escalação. Fato é que a apuração acabou sendo arquivada tempos depois, sem qualquer justificativa pública.

Dentro do clube, o Conselho Deliberativo levou mais de ano para apresentar os resultados de uma investigação do Comitê de Ética. Não se descobriu crime, mas se concluiu que houve um erro administrativo.

E, por esse erro, o então presidente Manuel da Lupa foi expulso dos quadros da Portuguesa. O ex-mandatário sempre negou erros e irregularidades, recorreu à Justiça e restabeleceu os direitos. Desde então, o clube nada mais fez. De 2013 para cá, seis presidentes passaram pela Lusa.

Heverton em partida pela Lusa em 2013 — Foto: Marcos Bezerra/Futura Press

Heverton em partida pela Lusa em 2013 — Foto: Marcos Bezerra/Futura Press

Nenhum conseguiu interromper a derrocada. É difícil imaginar como torcedores como Artur resistem tão bravamente ao ver as quedas da A para a B, a C, a D.

Há eleições programadas para o fim deste ano. Para alguns, a esperança de novos tempos. Para outros, o risco de não chegar ao centenário é real, independente de qual seja a diretoria. A desilusão toma conta do estádio do Canindé.

A única certeza é que a torcida continuará resistindo. Afinal, de tudo que a Lusa construiu ao longo de 99 anos de história, só o amor continuou inabalável. É esse sentimento que mantém Artur firme a frente do grupo SOS Canindé.

Na volta para casa, as lágrimas de Artur não são mais de alegrias por vitórias épicas, por acessos ou por voltas por cima. As lágrimas são de tristeza em ver o que a Portuguesa se tornou. São lágrimas de dor, mas também de esperança.

– É como se a gente estivesse em uma UTI, vendo as gotinhas caindo. Você está morrendo. É assim que me sinto. Mas tenho esperança de que vamos sair dessa situação. Quero estar vivo para ver a Portuguesa na Série A – disse Artur.

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