08/01/2017 às 15h43min - Atualizada em 08/01/2017 às 15h43min

"Punição era por causa da minha orientação sexual", diz ex-aluno do ITA

O engenheiro Talles de Oliveira Faria diz que durante cinco anos foi alvo de homofobia e de processos disciplinares que resultaram em seu desligamento da Força Aérea

Fonte Gazeta Online

Talles de Oliveira Faria, ex-aluno do ITA - Foto:Reprodução/Youtube

No dia 17 de dezembro do ano passado, durante a entrega dos diplomas do curso de Engenharia pelo Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA), um estudante chamou a atenção: Talles de Oliveira Faria, de 24 anos. Quando seu nome foi chamado, ele tirou a beca, rodopiou e revelou que usava salto alto, maquiagem e um vestido vermelho, onde estava escrito um desabafo. “Um protesto contra a homofobia praticada nos últimos cinco anos naquela universidade”, contou. Seu protesto ganhou repercussão e ele revelou que foi alvo de vários processos disciplinares que resultaram em seu desligamento da Força Aérea. “Para eles, eu não era compatível com a carreira militar”. Conta ainda que os problemas começaram muito antes, em outra escola militar, onde não havia nenhum aluno LGBT. “Seis amigos e eu fomos os primeiros a nos revelar”, relata Talles na entrevista que segue.

O que motivou a escolha do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA)?

Sou de Boa Esperança, uma cidade no interior de Minas Gerais. Sempre ouvi falar da boa formação oferecida pelo ITA. Meu sonho era fazer Engenharia da Computação e queria ter acesso à melhor educação, na melhor faculdade do país. Assim, no ensino médio fui para a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (Epcar), da Força Aérea Brasileira, em Barbacena. Lá teria acesso a um ensino melhor do que o da minha cidade, com acesso inclusive a esporte.

Nesta época você já tinha revelado a sua orientação sexual?

Não. Escondi a minha orientação sexual até o terceiro ano, quando revelei para a minha família, que aceitou muito bem. Nessa época alguns amigos da escola também ficaram sabendo. Uma fase muito difícil, de muito medo. Desde pequeno você tem receio de te chamarem de viado, porque ser viado era ofensivo. E tinha ouvido falar da homofobia nas Forças Armadas. Minha preocupação era revelar e ser desligado da Epcar. Aí teria que contar para a minha família que era gay e que por isso fui expulso da Aeronáutica.

Não havia alunos LGBT na Epcar?

Não e visivelmente tinha algum problema com aquele lugar. Os alunos da minha turma foram os primeiros a se assumirem. E foi péssimo. Nossos amigos se afastaram, deixaram de falar conosco, não eram mais tão presentes, o que nos decepcionou. Você não espera isto dos amigos, como se tivessem um motivo para te diminuir e você sabe que não tem, que é só ignorância. Éramos em sete, mas alunos do segundo ano chegaram a fazer uma caça às bruxas, criando uma lista com o nome de 15 estudantes da minha turma (terceiro ano) que seriam LGBTs. Alguns até eram, outras estavam no armário, e muitos tiveram sua visão política confundida com orientação sexual.

Mesmo com as dificuldades já enfrentadas, decidiu ir para o ITA.

Sim. Não deixaria de ter acesso a um ensino bom, com a possibilidade de receber um salário durante a graduação, acesso a alojamento e refeições, benefícios que não teria em outra faculdade. E não abriria mão por causa de batalhas em relação a homofobia que teria que enfrentar.

E os problemas começaram logo que chegou?

No ITA era mais tranquilo do que na Epcar, mas não significa que fosse bom. As pessoas sempre falam que já melhorou muito. Mas não quero que minha orientação sexual em momento algum seja definidora do que eu sou ou da forma como as pessoas vão me tratar. Quero ser tratado como qualquer heterossexual é tratado. Não quero me limitar, como pessoas heterossexuais não têm que se limitar. A questão de igualdade é exatamente esta. Pode ter melhorado, mas ainda temos problemas.

Dê um exemplo.

Há uma cultura de piadas que ainda é muito forte ao depreciarem a homossexualidade – imitavam o meu jeito de falar, me depreciavam pelas costas, falando aquele viadinho e coisas do tipo. As pessoas precisam sair do armário, mas lá as pessoas já assumem que você seja hétero. Você passa a se questionar sobre como as pessoas vão te tratar, o que acontecerá se descobrirem que tem um namorado, se andar com ele de mãos dados pelo campus, se vão fazer piada, gritando e te chamando de viadinho. Você fica se questionando se estará preparado para enfrentar tudo isso. São preocupações que o hétero não tem que enfrentar.

E muitos acabam querendo compensar.

Muitos LGBTs colocam isso na cabeça, de que precisam compensar de alguma forma. Você é viado e por isto tem que ter um currículo melhor, as melhores notas, que é mais inteligente, mais rico, caracteristicas sociais para compensar. Parei de fazer isso quando cheguei ao ITA. Vi que não tinha que compensar, só tinha que ser eu mesmo e que isso já era ótimo.

Quando as coisas começaram a piorar? Você foi alvo de vários processos.

Houve uma troca de comando e quem assumiu o posto era uma pessoa bastante homofóbica. E começaram com uma seletividade de punições. Na prática, se for a sua intenção, você sempre vai encontrar alguém com algum tipo de problema: é um calçado inadequado, um uniforme que não está bom, sempre terá um motivo. Se você lida com alguém que é homofóbico, ele já tem motivação para te punir, por não aprovar a sua orientação sexual. Se fosse outra pessoa, talvez passaria por debaixo do pano, muitas coisas que héteros fazem não são punidas. Vieram em cima por coisas pequenas.

E o que aconteceu?

Existe um limite máximo de punições por ano e eu não estava nem perto, mas abriram uma sindicância e pegaram postagens do Facebook, situações pelas quais ninguém nunca tinha sido punido na Aeronáutica. Era prova de que queriam me tirar de lá.

Foi quando desistiu da carreira militar.

Eles me apresentaram esta opção. No terceiro ano todos escolhem se vão seguir ou não como militares. Muitos tentaram sair e foram “ameaçados” de serem desligados do ITA se optassem por esta decisão, na esperança de que mudassem de ideia e permanecessem na Aeronáutica. No meu caso foi a primeira vez em que está proposta partiu da reitoria. Cheguei a procurar advogados para contestar as acusações, mostrar que era caso escrachado de homofobia, mas não encontrei apoio. Eles queriam uma solução mais conciliativa do que ir para a Justiça, achavam que eu ficaria quieto.

Isso te revoltou?

A maior revolta foi quando geraram os arquivos de punições e deixaram claro que tudo o que estava acontecendo era por causa da minha orientação sexual. Queriam me desligar porque eu não era compatível com a carreira militar. A proposta era adiar o problema e sem o risco de colocar a graduação em risco, pareceu uma solução razoável.

Quando surgiu a ideia do protesto?

Desde o terceiro ano sempre disse que na colação iria com um vestido glamouroso mas, depois de todos os problemas ao longo dos cinco anos na faculdade, percebi que teria que ir além da beleza. Tinha que passar uma mensagem para gerar alguma mudança no ITA. E acho que consegui. A repercussão foi grande, estou vendo vários coletivos se movimentarem em resposta, e acredito que os alunos perceberam que a voz deles tem poder, o que vai fortalecer a pressão interna por mudanças. O ITA terá que responder, de alguma forma. Mas ainda é uma longa batalha. Tive acesso a uma conversa nas redes sociais de militares da Academia de Formação de Oficiais. Era um discurso de muito ódio, prova clara de que, apesar da Aeronáutica se dizer não homofóbica, suas ações e cultura mostram o oposto.

O que muda em você após o que viveu?

Estou mais fortalecido e decidido a não me calar em situações de violência. Estou analisando propostas de trabalho e me preparando para fazer um doutorado fora do país. Tenho orgulho do que sou. E para os que possam a vir a enfrentar batalhas semelhantes, digo para se alinharem aos coletivos com os quais se identificam. Me aliei ao Agita (Associação LGBT do ITA) e este coletivo é responsável por grande parte do empoderamento que tenho. Muito deste orgulho nasceu por causa dele.

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